I know a bank where the wild thyme blows, Where oxlips and the nodding violet grows, Quite over-canopied with luscious woodbine, With sweet musk-roses and with eglantine: There sleeps Titania sometime of the night, Lulled in these flowers with dances and delight.
Don't wanna be here? Send us removal request.
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Milo tinha a infeliz habilidade de reconhecer um Thornhill de longe — e, para seu azar, Richard era um dos mais fáceis de identificar. No instante em que seus olhos pousaram no mais velho, todo o seu corpo ficou rígido, a tensão percorrendo cada músculo de forma inconsciente. A última pessoa que queria encontrar depois de uma noite péssima de sono era Richard Thornhill. Comparado a ele, até Victor parecia uma companhia mais leve e suportável.
Pigarreando, Milo tomou um gole do chá, tentando aliviar o desconforto que a presença do outro lhe causava. — Acredito que ninguém gostaria de ainda estar aqui… — Ele fez uma pausa e corrigiu-se, lançando um olhar discreto ao redor. — Ou pelo menos, a grande maioria.
Richard parecia o mesmo de sempre. Perfeito, bem-apessoado, impecável, cordial… e detestável. Pelo menos na visão de Milo. Não importava se agora usava boas roupas, se tinha uma educação refinada, um círculo social respeitável — porque ao lado de Richard, Milo ainda se sentia pequeno. Ele sabia que parte desse ressentimento vinha de suas próprias inseguranças, mas preferia não refletir muito sobre isso.
O problema era que nenhuma de suas lembranças com Richard era boa.
Como poderia se sentir bem na presença de alguém que, durante anos, o aconselhara a se afastar de pessoas que realmente importavam para ele, como Lydia? Que sempre deixara claro que existia um abismo entre os dois?
Ele respirou fundo, forçando-se a manter um tom neutro:
— Está bem. Finalmente descansando… mas ainda trabalha aqui às vezes. Uma vez empregado de Thornhill, sempre empregado. — A acidez em sua voz transpareceu antes que pudesse evitar. Ele tomou outro gole de chá, pousando a xícara sobre a mesa antes de pegar um cigarro e acendê-lo. — Deixei Thornhill há muitos anos. Oxford, na realidade. Dou aulas lá. — Levou o cigarro aos lábios, tragou devagar e soltou a fumaça antes de encará-lo novamente. — E você? Muitos projetos filantrópicos e reuniões da alta sociedade?
“E alguma vez ela pareceu ter um?”
Richard Thornhill puxou uma das cadeiras, posicionou-a meio virada para que ele não se sentasse totalmente virado para a mesa, mas tendo vista do resto do jardim. Quando tomou assento, uma perna cruzada sobre a outra, tirou o bolso e colocou sobre a mesa sua cigarreira metálica, buscando seu isqueiro em sequência. “Mas parece coletivo essa manhã, não? A noite não foi descanso suficiente para matar o desgaste da viagem? Todo mundo está meio… tenso.” Mas não ele. Richard parecia estranhamente despreocupado. Olheiras, sim, mas um rosto que vira o brilho de uma navalha naquela manhã, cabelos bem penteados e posicionados no lugar com gel. Parecia casual naquele seu confortável suéter de casimira azul, mangas puxadas a altura dos cotovelos. Prendeu o cigarro entre os lábios, testou a chama e a cobriu com a mão contra o vento até que pegasse fumo. Inclinou-se para trás, costas contra o encosto, no primeiro trago, parecendo lembrar da presença de Milo. Olhou-o. Parecia muito bem.
Tudo o que sabia do sujeito se limitava a duas coisas: que era filho do jardineiro, que costumava seguir Lydia como uma sombra persistente. O garoto que Richard fora não o odiava, mas certamente o considerava uma ameaça. Lydia fora uma criança frágil como a folha de outono prestes a se desprender, e de repente havia alguém incentivando-a ao perigo que era o mundo externo. Na época, Richard não conseguia associar aquela sensação de formigamento na pele a um constante estresse causado por excessiva preocupação, ele associava a raiva, às vezes ao medo, mas principalmente raiva. Raiva era melhor do que qualquer outra coisa. Suas memórias eram uma bagunça disforme, mas ele tinha quase certeza que pelo menos uma vez mandou Milo deixar a irmã dele em paz, assim como mandara Cassandra ficar quieta, pois ele não queria ouvir o que ela tinha a dizer a respeito da casa. Deus, ele fora terrível... Como Edmund e Daphne haviam o tolerado, era ainda um mistério. Será que Milo ainda tinha suas ressalvas para com Richard, ou será que ele havia colocado aqueles desentendimentos como águas passadas? Eram adultos, não eram?
“Como está seu pai?” quis saber, mantendo a conversa naquele tom impessoal. “Charles me disse que ele vive agora na vila. Você deixou Thornhill, não deixou? Londres?”
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Milo estava exausto. Não só fisicamente, mas também mentalmente, psicologicamente… existencialmente. A noite anterior fora uma das piores de sua vida, e o tailandês sabia que se lembraria dela pelo resto da sua existência. Voltar à sua antiga casa trouxe à tona uma enxurrada de sensações—impotência, mediocridade, um vazio que ele sequer conseguia nomear.
E agora, aquele maldito café da manhã, cercado por todas aquelas pessoas, parecia sugar o pouco de energia que ainda lhe restava.
Quando chegou aos jardins, ficou tão perplexo com o que a Sra. Banks ousava chamar de sorriso que nem percebeu quando se sentou perigosamente perto de Victor. Passara a noite inteira tentando se livrar dele e, ainda assim, cometia esse deslize patético. Se xingando mentalmente, pegou a xícara de café, prestes a tomar um gole, mas parou com o líquido a poucos centímetros dos lábios antes de devolvê-la à mesa.
— Nem vou perguntar o que você fez com ela — murmurou, pegando um de seus palheiros e levando-o aos lábios. Acendeu o cigarro e tragou profundamente, soltando a fumaça devagar antes de lançar um olhar de soslaio para Victor. — Qual o problema com a Sra. Banks hoje?
starter aberto, no jardim de thornhill às onze horas da manhã.
aviso de conteúdo: uso de substância ilícita.
ele se vê no espelho e a cena é deplorável; não foi a luz do abajur que o manteve acordado, foram aquelas formas contorcidas e as vozes que, pelo sibilar umbroso, não soavam convidativas. os benzodiazepínicos não serviram de nada, quase como se tivesse tomado um�� placebo. nunca conseguia prever quando os pesadelos iriam atacar o subconsciente, já havia tentado encontrar um padrão, dias e dias sem dormir, mas eles pareciam ter vida própria. não ligou para as manchas abaixo dos olhos que começavam a enfeitar a feição nada amistosa. encheu o copo com a água da pia, imediatamente o levando até a boca após engolir os três comprimidos analgésicos — queria exterminar a dor de cabeça cuja a latência parecia piorar com o passar dos minutos. victor seca o corpo e larga a toalha sobre a cabeceira da cama e não demora para colocar a roupa. contrariando a moda vigente, preferia usar cores sóbrias e optou pela calça marrom escuro e blusa de gola alta preta. perfeitamente vestido, já deveria ter descido para o café da manhã. entre quatro paredes, victor separa uma única fileira do pó branco e inspira com vontade, jogando a cabeça para trás e ardência corre por sua pele, enquanto o cômodo parece ser consumido pelo cheiro desagradável. o mau humor proveniente da noite mal dormida desaparece, a falsa sensação de bem-estar apoderando-se de seu corpo.
a lembrança vem como um leve sopro. ele nunca gostou dos domingos em thornhill, mesmo que adorasse tomar o chá preto com leite após o culto insuportável. lembrou-se das vezes em que recebeu sermão da senhora banks após profanar a igreja com seus comentários ácidos e cheios de rancor. porém, na memória, a velha não parecia tão insana como agora. quase podia se ver cochichar no ouvido de daphne enquanto dividiam um pedaço de bolo de chocolate, a língua quase sentiu o gosto doce; que havia se tornado amargo, quase podre. victor cruza as pernas e deixa a fumaça de cigarro ir com o vento antes de afundar o que restou dentro de uma xícara de chá perfeitamente cheia. da sua xícara com café preto e leite, a mesma escolha de quando era criança, mas sem guimba de cigarro, ele dá um pequeno gole. ‘ se eu fosse você não beberia isso. ’ aconselha quando muse se senta na cadeira ao lado e tenta beber do líquido agora estragado.
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@holymad




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Milo sentia-se cada vez mais aprisionado, como se a grama ao seu redor estivesse crescendo lentamente, enroscando-se em seu corpo como uma planta carnívora prestes a devorá-lo. Claro, ele sabia que isso era impossível, mas a sensação de estar preso não diminuía, por mais irracional que fosse. Talvez o verdadeiro problema fosse sua falta de coragem.
Ele queria sair dali, gritar com todos, reduzir Thornhill a cinzas — destruir metade e incendiar a outra. Mas, no fim, nem sequer conseguia se levantar da mesa. Restava-lhe apenas observar em silêncio, atento a tudo, mas principalmente a Cassandra, que estava por perto. Quando ela o levou para longe, ele simplesmente a acompanhou, sentindo no fundo do peito que algo estava errado com a amiga de anos.
Sem hesitar, envolveu-a nos braços, segurando seu corpo pequeno contra si, como se quisesse protegê-la do mundo. Com delicadeza, seus dedos deslizaram pelos cabelos dela, num gesto instintivo de conforto.
— Cas, acalme-se, por favor — pediu, a voz baixa e cheia de ternura. Ele a abraçava como fazia quando eram crianças, oferecendo toda a paciência e segurança que podia. — O que aconteceu, terak? Alguém te disse algo?
Starter: com @outsidegarden Local: Jardim e pérgola Horário: 13:00
Cassandra estava cansada daquilo. Das conversas superficiais, dos rostos amadurecidos que um dia foram a sua vida, do frio que se engrenhava por dentro de suas roupas e gelava seus ossos. Naquele instante, não queria ver mais nenhum deles ─ com a exceção de um. Enquanto os outros estavam distraídos, pegou Milo pelo braço e praticamente arrastou o amigo até a pérgola, onde imaginou que não mais seriam incomodados. Se sentindo muito sobrecarregada por toda a situação, o abraçou com força, escondendo o rosto em seu peito por um momento. Tudo era demais para si; aquele lugar não mais parecia seu lar ─ talvez nunca o tivesse sido. "Vamos embora", murmurou, a voz fraca. "Vamos fugir daqui. Não aguento nem um segundo a mais nesse lugar." Sentia como se a própria propriedade protestasse a seu pedido, como se a grama se enrolasse em seus sapatos ─ mas aquilo não poderia acontecer de verdade, poderia? "Se possível, eu volto até mesmo a pé para Londres. Só não quero mais ficar aqui."
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Milo sentia-se aprisionado, sufocado pela presença de tantas pessoas ao seu redor. O pior era que já não sabia se o que lhe fazia tão mal eram as companhias ou o próprio lugar — o que, ironicamente, lhe arrancava um sorriso amargo. Quando criança, Thornhill parecia um paraíso repleto de segredos esperando para serem desvendados. Agora, era apenas um labirinto claustrofóbico de lembranças e desconforto. Já havia tomado chá, fingido comer, mas tudo lhe causava apenas azia e um peso incômodo no estômago.
O movimento repentino de Lydia o fez sobressaltar, mas ele agradeceu silenciosamente por não ter sido o primeiro a tomar aquela iniciativa. Assentindo à pergunta dela, limpou os lábios com o guardanapo, levantou-se e se despediu com a mesma cordialidade ensaiada de sempre — para, em seguida, segurar o braço da amiga e praticamente arrastá-la para fora dali.
Afastados da mesa, Milo finalmente inspirou fundo, sentindo um alívio quase palpável ao trocar o ambiente sufocante pela atmosfera aberta da floresta. Ele soltou um suspiro pesado, ainda segurando Lydia como se ela tivesse acabado de salvá-lo de um naufrágio.
— Obrigado! Se eu tivesse ficado ali por mais um minuto, acho que teria um passamento.
COM: @outsidegarden ONDE: jardins QUANDO: por volta das 15:00
quando criança, lydia sempre sonhou com os jardins verdejantes de thornhill, suas cores e fragrâncias. apesar de estarem há apenas alguns metros de distância, naquela época, presa à sua cama e à suas frequentes crises de asma, eles poderiam estar em outro país. quão engraçado que agora, com os jardins à sua disposição, tudo que ela mais queria era voltar à seu apartamento escuro e empoeirado. o problema não eram os jardins — na verdade, as mãos de lydia coçavam para pegar sua câmera e tirar algumas fotos, tentar capturar o fato que mesmo naquela mansão abandonada ainda havia vida, plantas e passarinhos e vermes. mas a sombra de thornhill era inescapável mesmo em um dia levemente ensolarado. "eu vou caminhar." ela declarou para a mesa, se levantando bruscamente e agarrando sua câmera, antes de olhar para milo. "vêm comigo?"
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Milo soltou uma risada forçada, carregada de ironia, antes de lançar um olhar de esguelha para o outro. — Tem certeza de que fomos realmente convidados? Porque, pelo que me lembro, a Sra. Banks nunca fez isso. A menos que fantasmas tenham nos chamado, somos todos intrusos aqui. — Sempre foi assim. Pelo menos era essa a sensação que ele tinha toda vez que pisava naquela casa, cercado pelos outros.
— Por quê? Ainda pareço um empregado de Thornhill?
As palavras escaparam antes que pudesse segurá-las, o tom mais duro e afiado do que pretendia. Estar ali o afetava mais do que deveria. Depois de adulto, sempre se manteve cordial, mas aquela casa parecia arrancar o pior dele. Suspirou, balançando a cabeça em frustração.
— Estou um pouco cansado da viagem. Acho que deveria me retirar para descansar. — Com um leve meneio de cabeça em despedida, ele se afastou da biblioteca.
— fim.
edmund notou a tensão na resposta de milo e o sorriso em seu rosto diminuiu sutilmente. nunca havia parado para pensar na biblioteca – ou na própria mansão – como um espaço onde alguém pudesse se sentir um impostor, mas, claro, a perspectiva dele era diferente. as realidades de ambos dentro de thornhill nunca foram as mesmas. “— quero dizer, você não foi convidado?” perguntou, sem qualquer tom de repreensão, com a intenção clara de fazê-lo sentir-se bem-vindo.
observou enquanto milo se movia entre as prateleiras, os dedos deslizando pelos títulos empoeirados com a naturalidade de alguém que conhecia bem aquele lugar. “— esse canto já foi minha zona de conforto.” comentou, com um traço de nostalgia, enquanto apontava para um espaço vazio entre os estandes atrás deles. em meio ao silêncio da biblioteca, ele costumava tirar cochilos ali.
quando percebeu que milo não o reconheceu de imediato, edmund soltou uma risada baixa. “— sim, aquele chato que vivia dando bronca em vocês.” confirmou, com leve humor. sempre foi bom com rostos, principalmente os dos que causavam confusão. e milo, apesar de sua fama de 'fujão', nunca foi um rosto fácil de esquecer. ele podia fingir que não, mas a paixão pela botânica sempre esteve lá – edmund lembrava bem das ocasiões em que os livros desapareciam de uma seção específica e, em uma ou outra vez, quando acordava de um cochilo, flagrava milo pegando um volume às escondidas – talvez fosse uma das poucas vezes em que ele decidia simplesmente deixar passar.
“— e então... ainda mora na cabana?” perguntou, estudando-o com um olhar atento, como se tentasse montar a linha do tempo entre o garoto que conheceu e o homem diante dele.
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Onde: Jardim de Thornhill.
Quando: perto das 12h
Milo manteve sua melhor expressão de ator enquanto levava a xícara de chá aos lábios, saboreando o líquido quente na esperança de que isso lhe trouxesse alguma lucidez naquele lugar deplorável. Ir até sua antiga casa havia sido, sem dúvida, um dos piores erros desde que decidira voltar a Thornhill. Passou a noite inteira atormentado por pesadelos - preso naquele lugar, incapaz de sair, fadado a ser um mero jardineiro e empregado pelo resto da vida. Um verdadeiro pesadelo.
Foi arrancado de seus devaneios pelo som de passos se aproximando. Balançou a cabeça em um cumprimento discreto, abaixando a xícara antes de soltar, com ironia:
— Eu diria "bom dia", mas acho que nem a Srta. Banks está tendo um bom dia.
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A paciência de Milo se esvaía a cada palavra que saía da boca de Victor. O médico conseguia ser cruel de um jeito quase cirúrgico – preciso, cortante, como se soubesse exatamente onde ferir para arrancar uma reação. E Milo odiava dar esse gosto a ele. Talvez fosse esse o motivo pelo qual Victor insistia tanto. Porque sabia que conseguia tirá-lo do sério. Eles passaram a infância brigando, disputando qualquer coisa, se provocando até um deles perder a paciência. Quando Victor foi embora de Thornhill, Milo acreditou – ingenuamente – que nunca mais teria que lidar com ele.
Como estava enganado.
Agora, de volta àquela casa, àquela cidade e, por alguma piada cósmica, ao lado dele de novo, Milo se perguntava em que momento de sua vida havia tomado a pior decisão de todas. Porque, em algum ponto, ele achou que transar com Victor era uma boa ideia? Idiota. Ele deveria ter previsto que, no dia seguinte, acordaria com a mesma vontade de socá-lo.
Milo suspirou pesadamente, tateando o interior das vestes simples até encontrar seu maço de cigarros. Avançou contra Victor, pressionando o maço contra o peito dele, as unhas curtas se cravando na camisa do loiro enquanto o encarava. — Agora você tem um maço de cigarros para fumar, Victor. Me deixe em paz. — A voz era baixa, mas carregada de exasperação e ameaça contida. Não fazia ideia se isso surtiria efeito, mas precisava tentar.
Sem esperar resposta, virou-se de costas e ignorou a presença dele, concentrando-se no motivo real de estar ali. A antiga cabana parecia congelada no tempo. O cheiro amadeirado, o rangido das tábuas, a poeira que se acumulava sobre os móveis… tudo parecia pertencer a uma versão distante de si mesmo. Ele caminhou até um dos balcões, tateando em busca de algo para iluminar melhor o ambiente. Seus dedos encontraram a lamparina que costumava estar ali anos atrás, e, com sorte, ela ainda funcionava. A chama dançou, e metade da casa se iluminou sob a luz bruxuleante. Milo seguiu até o corredor estreito. Apenas dois quartos. O dos pais e o dele. Ele girou a maçaneta e empurrou a porta, sentindo o ar parado do cômodo abraçá-lo como um velho conhecido.
Seu peito se apertou.
As paredes eram as mesmas, o cheiro levemente almiscarado, os móveis intactos – tudo parecia pertencer a um tempo que ele havia deixado para trás. No canto, sobre a escrivaninha, encontrou os cadernos antigos. Milo nunca fora grande apreciador de arte, mas, quando criança, adorava desenhar as plantas do jardim. Passava horas rabiscando flores, folhas, galhos retorcidos… Ele passou os dedos pela capa de um dos cadernos, sentindo a textura desgastada do couro sob a ponta dos dedos.
— Isso é nostálgico demais… – A voz saiu em um sussurro, mais para si mesmo do que para qualquer outra pessoa.
um sorriso pequeno e ardiloso aparece nos lábios quando o vê se assustar. ‘ ninguém nunca te ensinou a prestar atenção ao seu redor? ’ retrucou. se aproxima dele como um predador se aproxima da sua caça, não quebra o contato visual. algumas coisas nunca mudam; assim como antes, ainda adorava tirá-lo do sério, apesar de não o suportar. o médico não se ofende com o palavrão, mas arqueia uma das sobrancelhas quando vê o cigarro ser tomado da mão. ‘ eu estava fumando isso. ’ passou uma das mãos pelos cabelos loiros, irritadiço. o seu precioso cigarro agora estava no chão, morto e esmagado, como alguns dos cadáveres que já havia visto. a morte do cigarro o incomodou mais. sequer gastou energia em dar de ombros, simplesmente ignorou a gesticulação de milo — ele sabia muito bem que não conseguiria enxotar victor. ‘ eu estava fazendo algo muito útil antes de você acabar com o meu cigarro. ’ também não queria deitar e pegar num sono, tão pouco conseguiria. mas, felizmente, amanhã todo aquele mistério desnecessário seria revelado e ele iria embora. ‘ obrigado, agora você está me devendo um cigarro. ’ obviamente o acompanhou, a curiosidade e a vontade crua de provocá-lo falando mais alto. ‘ que espelunca. ’ disse quando o ambiente passou a ficar parcialmente iluminado. ‘ então é aqui que você morava, hm? ’ sussurrou próximo a ele. ‘ aposto que deve estar morrendo de saudade. ’
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APO NATTAWIN as Khem in Man Suang (2023)
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Milo nunca se considerou o homem mais corajoso do mundo, mas visitar sua antiga casa à noite não era um problema para ele. O problema era quando uma voz surgia do nada, no meio da escuridão. Seu corpo se encolheu no susto, girando nos calcanhares apenas para dar de cara com o dono da voz—alguém que, infelizmente, ele conhecia bem demais.
— Seu filho da p…! — praguejou, levando instintivamente a mão ao peito. Seu coração martelava sob a camisa de estilo tailandês que vestia. — Ninguém nunca te ensinou a não chegar assim nas pessoas, Victor?
Ele revirou os olhos ao ouvir a pergunta do outro, forçando-se a respirar fundo. Era sempre assim. De alguma maneira irritante, Victor e ele estavam fadados a se cruzar. Milo ainda conseguia lembrar da primeira vez que o viu, descendo do carro anos atrás, enquanto ele cuidava do jardim. Ou de como discutiam por tudo. Ou, pior, de como, por algum motivo inexplicável, todo lugar que ele ia, Victor também aparecia.
— Se eu consigo falar com um animal igual você, não vejo qual o problema. — Um sorriso forçado surgiu nos lábios de Milo enquanto ele roubava o cigarro da mão de Victor e dava uma longa tragada. Ele soltou a fumaça devagar, então jogou o cigarro no chão, esmagando-o com o pé. — Você não tem nada mais útil pra fazer? Finja que não me viu, vai. — Com um gesto preguiçoso da mão, como se estivesse enxotando o outro, Milo virou-se para a porta. Tirou do bolso a chave que roubara da cozinha antes de sair e a girou na fechadura, ouvindo o clique pesado da tranca enferrujada.
Empurrou a porta com o ombro e entrou na escuridão da cabana. Tateou a parede em busca do interruptor, torcendo para que pelo menos algumas lâmpadas ainda funcionassem. Depois de um estalo elétrico e algumas piscadas hesitantes, uma luz fraca iluminou o interior. Milo observou o cômodo, um arrepio percorrendo sua espinha. — Esse lugar não mudou nada…
‘ espero que sim. ’ aprendeu, ainda durante a infância, a ter pés leves e transitar pelos corredores com facilidade. apesar da sensação sombria que vinha com a noite, victor muitas vezes conseguia ser encontrado na biblioteca, principalmente quando os sonhos se tornavam excessivamente perturbadores. diferentemente de seu ambiente predileto, tão pouco chegou a visitar a antiga cabana do jardineiro. gostava de deitar no gramado do jardim e se deleitar sobre um livro, isso quando não coincidia de encontrar o filho do jardineiro trocando palavras com uma planta qualquer; escolhera aquele canto para não ser encontrado por ninguém. o reencontro possuía sabor agridoce, além da carta misteriosa que despertou uma curiosidade cruciante, rever certos rostos trouxe à tona lembranças indesejadas. victor saiu das sombras, revelando-se, obviamente, com um cigarro entre os dedos. contudo, sabia que milo havia reconhecido a voz antes mesmo de vê-lo. ‘ talvez, se pedir com carinho, ela não caia. ’ bateu com o polegar no cigarro, fazendo as cinzas caírem no chão. ‘ como se já não bastasse falar com objetos inanimados, agora também conversa sozinho? ’
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No you weren't. That's impossible.
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— E qual o problema com Catalina? — Milo franziu o cenho, estranhando o comentário sobre a amiga. — Mas convenhamos, o nível de persuasão daquela mulher é tão grande que, se ela me dissesse que eu poderia gostar de mulheres, eu acreditaria. — Ele realmente pareceu refletir sobre a ideia por um instante, mas logo uma careta se formou em seu rosto. Mesmo que tentasse – e ele tinha tentado, algumas vezes – sabia que sua sexualidade não mudaria. — Meu fígado agradece a consideração.
Milo pensara muito antes de decidir voltar a Thornhill. E, mais uma vez, Catalina estava no centro dessa escolha. No fim, ele veio para acompanhá-la – e por isso agora estava ali.
— Sinto muito, Lyd, mas… sinto como se estivéssemos no velório de Thornhill. — Seus olhos vagaram pelo ambiente, um calafrio percorrendo por seu corpo. — Acho que estar de volta é mais assustador do que quando éramos crianças.
Ele se ajeitou no sofá, pegando uma almofada e apoiando-a sobre o colo, buscando conforto. Então, repousou o rosto sobre a mão e sorriu de maneira carinhosa para Lydia, uma tentativa silenciosa de acalmá-la. — Aos poucos, as coisas vão melhorar, minha querida. — Buscando a mão dela, apertou-a entre as suas, num gesto quente e sincero. — Você sabe que, se pudesse, tomaria toda a sua dor para mim. Odeio te ver com essa carinha.
"sabe, passar o fim de semana bebendo não parece uma ideia tão ruim assim... mas não com a catalina." ela adicionou rapidamente, lembrando da interação que tivera com a mulher há alguns minutos. "mas se você insiste, acho que podemos nos contentar com chá e bolinhos. pelo seu fígado." lydia provavelmente também deveria se preocupar com coisas como a saúde de seus órgãos internos, mas depois de tantos anos de medicamentos, a ideia parecia um tanto risível.
"honestamente eu não sabia se viria até entrar no meu carro hoje de manhã. e eu não esperava ver todo mundo aqui... é tipo uma reunião de turma extremamente depressiva." brincou, forçando uma risada. a verdade é que saber que todos tinham recebido aquela maldita carta fazia o estômago de lydia se retorcer, como um presságio pairando entre todos eles, feito de tinta e papel.
ela caminhou até o sofá e se jogou nele, a postura perfeita instilada em seus músculos desde criança sumindo sob o cansaço do dia. a viagem não fora cansativa — lydia sempre gostou de dirigir, especialmente entre as colinas verdes de yorkshire. mas rever aquela casa, aquelas pessoas... tudo parecia um sonho. e não necessariamente um sonho agradavel. "eu também senti a sua falta. e bem... as coisas estão."
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Onde: Cabana em Thornhill, antiga casa do jardineiro. Quando: perto das 21h Com quem? @maddctor
Assim que chegou em Thornhill, a primeira coisa que pensou foi sua antiga casa. Mesmo que agora seus pais vivessem no vilarejo próximo, o tailandês nasceu e cresceu naquele lugar, ainda tinha um apego afetivo gigantesco ao lugar. Então assim que se livrou de todas as formalidades que poderia ter que lidar, de maneira furtiva fugiu pelos fundos, indo em direção a cabana.
Era uma cabana antiga, já que pelo o que Milo se lembrava, havia sido criada a pelo menos dois séculos atrás. Os pais haviam saído dali quando Milo se formou na faculdade, então não tinha muitas esperanças sobre o estado dela, o que só se confirmou quando avisou o lugar. Ela ainda estava inteira e em pé, mas aconteceu o mesmo que na mansão: o tempo a deteriorou, parecendo apenas um lugar frágil.
— Se eu tentar entrar, isso vai cair na minha cabeça? — a pergunta retórica veio em voz alta, enquanto se aproximava da porta da cabana.
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Milo estava entediado dentro daquela casa. Pode parecer absurdo, considerando que crescera em Thornhill, mas qualquer lugar do lado de fora parecia mais confortável do que ficar ali, dentro da mansão. Havia algo naquele lugar que parecia exercer um poder sobre ele—diferente daqueles que ouviam as vozes, Milo sentia-se... diferente. Como se, ao cruzar aquelas portas, se tornasse alguém que não era.
A melhor solução que encontrou foi tentar escapar, revisitar sua antiga casa. Parecia uma opção bem mais atraente do que permanecer ali. Tentou sair sem chamar atenção, mas não era mais a criança pequena e ágil de antes. Agora, era um homem alto, musculoso—e seus passos denunciavam sua presença.
O som de uma voz o fez parar. Endireitou a postura instintivamente, passando as mãos pelas roupas simples que usava para descansar, como se precisasse compor sua aparência antes de responder.
— Na verdade, sinto que muitas coisas mudaram… Mas o ar nostálgico ainda está aqui. Bom ver você, Pete.
STARTER ABERTO LOCAL: sala de estar HORÁRIO: após o jantar, antes das 22:00
Não era estranho para Peter carregar consigo por aí manuscritos. Podiam ser versões iniciais de seus próprios projetos, ou rascunhos de colegas que prezavam imensamente por sua opinião, antes mesmo até da publicação. Ficava lisonjeado, e muitas vezes tal elogio subia à cabeça, terminando em críticas mais pesadas do que o necessário. O que quer que estivesse lendo em seu colo, Peter mal prestava atenção, olhos fixados no aparelho de rádio desligado ao canto da sala. Somente pôde parar de encarar o objeto quando deixou de ouvir o familiar ruído (o rádio não estava desligado?), passando a ouvir passos se aproximando. "Estranho como nada mudou, não é? É como se a Senhora Fahey ainda estivesse em comando dos temperos."
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Não há muito o que entender sobre a guerra quando se tem sete anos.
Mas Milo não era ingênuo. Ele podia não compreender todas as nuances do conflito, mas era inteligente o suficiente para perceber o nervosismo dos pais, o peso da tensão que pairava sobre a casa como uma nuvem carregada. O perigo se fazia presente de maneiras sutis e, ao mesmo tempo, inescapáveis — na forma como seu pai, o Sr. Suthipong, reagia a cada estrondo do lado de fora, puxando esposa e filho para debaixo da mesa sem hesitar; ou no tremor discreto de suas mãos, que se fechavam com força ao redor deles, como se o aperto fosse suficiente para protegê-los do que quer que estivesse à espreita lá fora.
Milo via tudo. Sentia tudo.
E isso o aterrorizava. Seu pai sempre fora seu porto seguro, o homem que nunca demonstrava medo, que sempre soube o que fazer. Se até ele tremia... então o que poderia ser mais assustador do que isso?
Milo estava nos jardins, ajudando o pai a podar alguns arbustos, quando os carros começaram a chegar. O som dos motores interrompeu o ritmo tranquilo da manhã, e sua curiosidade foi imediata. Ele parou o que estava fazendo para observar as crianças que desciam dos veículos, uma a uma, tentando entender o que estava acontecendo.
Afinal, existiam tantos Thornhill assim no mundo? Como Lydia nunca havia mencionado aquilo?
— Pá, pá! — chamou, correndo até o pai, que cortava as folhas de uma árvore com paciência meticulosa. — Quem são todos esses? Eu não sabia que nong Lydia tinha tantos parentes.
Sem esperar resposta imediata, Milo agachou-se no chão, distraindo-se por um momento ao brincar com as folhas e pétalas espalhadas pela grama. Seus pequenos dedos traçavam padrões entre os galhos podados quando ouviu o som dos passos do pai descendo as escadas. O homem se aproximou em silêncio, agachando-se ao lado dele, acompanhando-o na brincadeira por alguns instantes antes de falar.
— Milo, quero que escute pá. — A voz do pai era gentil, mas carregava um peso que o menino não compreendia completamente. — Todas essas crianças vieram de longe. Estão aqui por causa da guerra, para se protegerem.
Milo franziu a testa, ainda distraído com a pétala de rosa em sua pequena mão. — Mas por que a guerra queria pegar elas?
O pai suspirou, os olhos cansados pousando sobre o filho.
— A guerra pega e destroi tudo o que está à sua frente, Milo. Não importa se são lék como você, grandes como pá ou velhos como sua yâa. — Ele fez uma pausa, garantindo que o filho estava ouvindo. Depois, inclinou-se ligeiramente, sua voz baixando para um tom ainda mais suave. — Quero que seja um bom menino para essas crianças. Elas sentem falta de casa, e isso as deixa tristes. Você pode fazer isso por mim?
Pela primeira vez desde o início da conversa, Milo levantou os olhos para o pai, piscando algumas vezes antes de assentir. Se esse era o desejo dele, não havia motivo para negar.
O mais velho observou o filho por um momento, um sorriso suave surgindo em seus lábios antes de levar a mão aos cabelos negros e lisos do menino, acariciando-os com carinho. Milo retribuiu o sorriso, pequeno, mas sincero, antes de voltar sua atenção para as folhas espalhadas no chão, retomando sua brincadeira como se, por um instante, o peso daquela conversa não existisse.
Dicionário do Milo.
ป๊า (pá) – Forma carinhosa e informal de chamar o pai.
เล็ก (lék) – pequeno.
ย่า (yâa) – Avó paterna (mãe do pai).
น้อง (nóng) – usado para se referir a alguém mais jovem de forma amigável.
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Um pequeno sorriso surgiu nos lábios de Milo enquanto ele passava um dos braços ao redor dos ombros de Cassandra, acariciando-os suavemente. Ela sempre lhe parecera tão pequena que, às vezes, tinha vontade de guardá-la como uma daquelas bailarinas delicadas de caixinhas de música - com todo o cuidado e carinho do mundo.
— Meu bem, você conviveu tempo demais comigo para ainda ser londrina. Oficialmente, é uma senhorita tailandesa. Será que devo lhe dar meu sobrenome? — provocou, brincalhão, bagunçando os cabelos dela apenas para irritá-la.
Observando-a, negou com a cabeça, como se achasse graça da teimosia dela.
— Eu nunca mentiria sobre a beleza de alguém. Você sabe muito bem que não sou esse tipo de homem. — disse, em tom leve, mas sincero. — Mas tudo bem, talvez Londres não fique tão bonita... Mas Thornhill, com certeza, sim. É quase como se o jardim de rosas estivesse florido novamente.
Porém, ao ouvir a pergunta dela, o sorriso de Milo esmoreceu. Seu olhar vagou pelo ambiente ao redor, como se esperasse ver algo escondido nas sombras. Ele sempre acreditou nas vozes que Cassandra dizia ouvir — no budismo, a morte não era um fim, apenas parte de um ciclo. Mas estar de volta àquele lugar lhe trazia uma sensação incômoda, uma constante impressão de estar sendo observado.
— Eu não faço ideia, Cas... Mas, infelizmente, algo bom não será. — murmurou, sombrio. Ainda assim, forçou um sorriso para tranquilizá-la... e, talvez, a si mesmo. — O que nos resta é esperar. Já estamos aqui, afinal.
Soltando um suspiro leve, afastou-se um pouco e estendeu a mão para ela, num convite. — Mas essa não deveria ser nossa preocupação agora. Que tal darmos uma volta por esses belos campos de espinhos?
Um alívio sem precedentes invadiu o seu peito quando reconheceu a voz que se aproximava, um sorriso tomando conta de seu rosto. Graças a Deus ele estava ali, pensou consigo mesma, incapaz de imaginar como seria intolerável estar em Thornhill sem Milo. De todas as pessoas que conhecera naquela mansão, Milo havia sido quem se mantivera ao seu lado todos aqueles anos depois, e o único que sabia a total verdade do que havia acontecido consigo depois que a guerra havia acabado.
Encostou a cabeça no ombro dele, fechando os olhos por um momento e se deixando apreciar a companhia alheia por alguns segudons. "Eu também sou londrina, lembra?", comentou em tom humorado, mas sem nenhuma acidez por trás da brincadeira. "Mas entendo o que quer dizer. Não há muita solidariedade ou doçura em meus conterrâneos." Riu com o outro comentário do amigo e fez que não com a cabeça. "Eu genuinamente acredito que você é o único que pensa isso."
Se manteve em silêncio por mais alguns segundos, observando seu cigarro queimar entre os dedos. Sua voz, quando saiu de novo, era consideravelmente mais baixa. "Por que você acha que estamos aqui? O que Thornhill iria querer conosco depois de todos esses anos?"
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I appoint Porsche, Nampheung's oldest son, my sister's son, to become the head of the minor family.
KINNPORSCHE: THE SERIES | episode 14 (2022)
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