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SEI, TU ÉS FELIZ
Co'a pena imersa na noturna tinta, Qual monge exangue a meditar na cruz, Busco nos versos uma vaga luz Que a febre ardente em minha fronte pinta.
Sei bem, tu és feliz sem minha voz. (Mas sei? Sei, realmente, com certeza?)
Oh, Anjo Etéreo do meu peito insano! Pomba perdida que o meu pranto chama, Diz-me, a ventura por teus lábios brama? Ou vive em ti meu fado soberano?
Dizes que o tempo te apagou a chama, Que vives bem sem meu triste lamento, Que a brisa afaga o teu contentamento, E não Me ouves mais no sono ou na cama.
Mas será mesmo que Eu morri em ti? (Como há num "sim" o gosto de "não"? Como há esperança no desespero?)
Se a Taça goza de um prazer sem pejo, Se a tua alcova se ilumina em festa Quando de Mim nenhum júbilo resta, Não voltes nunca mais ao meu ensejo.
Afogas a imagem deste amor profundo Nas águas turvas de um Letes qualquer; Sejas, antes, livre, do que a mulher Que chora presa nos braços do Mundo.
Esqueces as juras que a minh'Alma ouviu, Num leito novo abranda os seios teus; Se encontraste finalmente outro… Que morra o sonho em mim que não floriu!
Contudo, ó Virgem, se a lembrança amarga Te oprime a fronte com seu negro véu, Se a tua sorte se tornou mausoléu E tua face em prantos minha dor declara…
Ah, retorna a Alma para o meu peito! Ah, confessa, ora, ajoelha, chora!
Sangra, faz do teu ventre liquefeito! Pois vale a Morte partilhar a Vida! Mas se o que sentes não for a Ferida, Vai-te, deixa-me só com meu defeito
Que troca o teu "tudo" pelo meu "nada", Que compra com meu "triste" o teu "feliz". (Mas como desejo que doa em ti cada milímetro que dói em Mim...)
Gaetano Previati - Paolo e Francesca (1887 c.)
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O RIO E O MAR
Onze anos, e nem sequer um ponto
Das cartas que a névoa jamais entregou, Do sangue que escorre no rio da noite; Não sinto o suspiro que escreve a cegueira, Pois o tempo apagou com cinzas o conto.
As minhas constelações não mais desaguam, Meus astros são mudos até na memória. Mas se o silêncio é eclipse do confronto — Posso entender por que não há teor pronto.
E a tinta do rio que não toca o livro É uma cicatriz que nenhum terço mede. Choro noturno que papel algum guarda: A piedade é letra na alma que aponto…
Navego agora em mar de melancolia, Com a bússola quebrada no peito frio Que me leva ao desespero que reconto: Onze anos, e nem sequer um ponto
"anônimo"
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jean-baptiste robie: a still life with roses grapes and a silver inlaid nautilus shell
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